Sou só lágrimas e dor e pontadas no peito e falta de vida por onde rastejo.
terça-feira, 8 de maio de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Reforma
É como se a britadeira que inferniza meu silêncio matinal perfurasse meu coração na mesma intensidade com que afunda o asfalto da avenida.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Comunicação
Pulo linhas, digito trocados, não sei mais publicizar. Carrego por longos períodos os olhos na tela, fujo do tema, penso besteira. Corro para uma ligação, invento que fumo, invento beber café, invento festejar. Eu não sei mais materiarizar. Apago a cinza, queimo o cérebro. Apago o arquivo. Acabou. É hora. Vou divulgar o não materiarizado: minha falta de prudência em criar enunciados e sentenças que façam sentido e sirvam de algo, que sejam materiarizáveis.
domingo, 21 de agosto de 2011
Definições e a falta delas
Em sonhos, tenho uma aflição absurda e uma verdade tão bem construída, que o peito pula sem parar até parar o medo. E acho que vou capotar e murchar na frente de todo mundo até virar uma verruga, um sinal, uma marca, um ponto. E sou essas características.
Me dizem que não sou daqui, que sou do mundo. Mas nem eu sei de onde, nunca me dizem onde. Sei que não pertenço aos lugares em que fico. Não sei permanecer onde estou, busco sempre mais, procuro o novo. Ando em linhas aparentemente desconexas, mas que fazem muito sentido pra mim. Só vou saber quando for e voltar pra dizer que lá é meu lugar.
Por aqui, param-se serrarias, serralherias, construções. Fecha-se todo o comércio, resta a sorveteria. A noite dura mais, pessoas saem mesmo sob o desumano frio. Vestem-se com novos trajes, não sentem nada. Nem o bafo alcóolico que sai de si próprios. Festejam algo, dançam algo. Fizeram de hoje feriado. É um dia diferente numa rotina. Fujo dela.
Gosto de viajar e do quanto da visão do mundo que a janela do ônibus me dá. Estar à altura da maioria das árvores e arbustos dessa vegetação de uma quase caatinga, desse quase-sertão. Viro viajante, sou caminhoneiro, sou frases de pára-choque, sou passageiro. Sou Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo. Sou personagens-tipo. E não me defino, não sou nada. Sou cactos, mato seco, terra avermelhada, sou pequenos montes e estrada. Sou buracos, sou tapete. Sou pneu e poltrona. Cercas. Perdi. Sou eu mesmo tudo isso e dizer aqui é só mais repetição da vida. Pedágio, troco. Representações de mim.
O dendê que borbulha no acarajé, o cheiro de coentro e dos finais de tarde com meio-tons. Mulheres de pequenas cidades que lavam roupas em córregos e rios. Meninos e meninas que correm como crianças pelas ruas. O óleo fresco que tempera saladas e corpos e bezunta de uma certa leve esperança os que ainda carregam vida sob a radiação. O sol de março que arde as peles negras. Bocas afro, narizes, cabelos. E mãos de traços tão próprios, de belezas negras. Escura - longe do bizarro argumento racista - profunda raiz africana. Também isso. Podia me chamar Amarula, Guiné, Nigéria, Marrocos.
Aqui chama-se Bahia. Eu, no entanto, chamo de casa. Ou de mim mesmo.
Me dizem que não sou daqui, que sou do mundo. Mas nem eu sei de onde, nunca me dizem onde. Sei que não pertenço aos lugares em que fico. Não sei permanecer onde estou, busco sempre mais, procuro o novo. Ando em linhas aparentemente desconexas, mas que fazem muito sentido pra mim. Só vou saber quando for e voltar pra dizer que lá é meu lugar.
Por aqui, param-se serrarias, serralherias, construções. Fecha-se todo o comércio, resta a sorveteria. A noite dura mais, pessoas saem mesmo sob o desumano frio. Vestem-se com novos trajes, não sentem nada. Nem o bafo alcóolico que sai de si próprios. Festejam algo, dançam algo. Fizeram de hoje feriado. É um dia diferente numa rotina. Fujo dela.
Gosto de viajar e do quanto da visão do mundo que a janela do ônibus me dá. Estar à altura da maioria das árvores e arbustos dessa vegetação de uma quase caatinga, desse quase-sertão. Viro viajante, sou caminhoneiro, sou frases de pára-choque, sou passageiro. Sou Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo. Sou personagens-tipo. E não me defino, não sou nada. Sou cactos, mato seco, terra avermelhada, sou pequenos montes e estrada. Sou buracos, sou tapete. Sou pneu e poltrona. Cercas. Perdi. Sou eu mesmo tudo isso e dizer aqui é só mais repetição da vida. Pedágio, troco. Representações de mim.
O dendê que borbulha no acarajé, o cheiro de coentro e dos finais de tarde com meio-tons. Mulheres de pequenas cidades que lavam roupas em córregos e rios. Meninos e meninas que correm como crianças pelas ruas. O óleo fresco que tempera saladas e corpos e bezunta de uma certa leve esperança os que ainda carregam vida sob a radiação. O sol de março que arde as peles negras. Bocas afro, narizes, cabelos. E mãos de traços tão próprios, de belezas negras. Escura - longe do bizarro argumento racista - profunda raiz africana. Também isso. Podia me chamar Amarula, Guiné, Nigéria, Marrocos.
Aqui chama-se Bahia. Eu, no entanto, chamo de casa. Ou de mim mesmo.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Distorção
Não enxergo mais bem. Lentes não funcionam em mim nem cabem. De tudo, me sobrou o sono e o tempo de folga e isso virou cotidiano, sem mencionar os efeitos da falta. Estou só. Viro algo que não sou. Vago por ruas, cheiro ladrilhos, sou um cão sem raça, sem coleira. Fuço lixeiras, rasgo sacolas, como qualquer coisa que cheire menos podre. Não sei definir o que faço, apenas faço. E tenho feito tão pouco, só sigo rastros e farejo tudo procurando força e energia em algum resto de existência.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Estado de Sítio
"As cidades se fecham em si mesmas
O argumento da degradação das relações humanas
Cria o elogio à violência
Que além de espiada e pensada
Coloca-se cada vez mais presente
No grande mundo através de guerras
No mundo interior na forma de discriminação
Uma série de pequenas maldades
Se destilam em nossas almas e mentes
Desejos íntimos de execuções sumárias
Admiração a justiceiros genocidas
Vem a nos preencher o interior vazio da consciência
Como um elixir entorpecente
Transborda nossas grutas interiores
Com desejo de morte e odor pútrido
Pra tudo aquilo que não entendemos
Que não conhecemos
Sem que isso crie em mim ou em você
Necessidade alguma de maior compreensão
Nem mesmo capacidade de sentir ou colocar-se no lugar do outro
E novamente tomados de desejos egoístas e assassinos
Clamamos por penas de morte e chacinas em nome de segurança
Cidades cada vez mais fechadas, condomínios, ruas particulares
Milícias, shoppings e torres de vidro blindado
Que nos assegurem de nossa própria vontade demente
De punir infratores
As infrações são sempre alheias
Estamos quase sempre ungidos de inocência e boa vontade
Não há nada de errado em se dar bem
Não hei de me tornar alvo por ser bem sucedido
E assim fecho-me em muralhas
O imperativo é nos isolarmos cada vez mais com nossas migalhas
Que se limpe a cidade: de ruídos noturnos, esmolantes, dos sujos,
Dos caídos, da alegria subversiva das meninas e meninos de rua,
Do vigor da prostituição, do apagado colorido dos bares populares
Dos cães de rua e seus respectivos donos, dos catadores de reciclável, da permissividade boemia,
da essência humana que coabita na coexistência dos diferentes.
Vamos limpar das cidades o desejo humano do prazer do sexo
Permeados em olhos famintos que desejam e comem
O Brasil que tem fome
Nos isolando na reclusa solidão de nossas casas e apartamentos
Gozando a mais profunda perversão de nossos sentidos solos
Engaiolando nossas súplicas e desejos numa oração profana
Cada vez mais egoístas, solitários nefandos
A ordem se constrói de entradas e saídas
Ausgang-Eingang
Nossas cidades estão se tornando sítios dentro de gaiolas
Será que o Ibama conseguirá libertá-las?
Sendo assim, índios, mestiços, negros e nordestinos devem saber
Colocar-se e apreciar as entradas de serviço
Pois isso corrobora para a segurança das pessoas normais. Normais?
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento".
O argumento da degradação das relações humanas
Cria o elogio à violência
Que além de espiada e pensada
Coloca-se cada vez mais presente
No grande mundo através de guerras
No mundo interior na forma de discriminação
Uma série de pequenas maldades
Se destilam em nossas almas e mentes
Desejos íntimos de execuções sumárias
Admiração a justiceiros genocidas
Vem a nos preencher o interior vazio da consciência
Como um elixir entorpecente
Transborda nossas grutas interiores
Com desejo de morte e odor pútrido
Pra tudo aquilo que não entendemos
Que não conhecemos
Sem que isso crie em mim ou em você
Necessidade alguma de maior compreensão
Nem mesmo capacidade de sentir ou colocar-se no lugar do outro
E novamente tomados de desejos egoístas e assassinos
Clamamos por penas de morte e chacinas em nome de segurança
Cidades cada vez mais fechadas, condomínios, ruas particulares
Milícias, shoppings e torres de vidro blindado
Que nos assegurem de nossa própria vontade demente
De punir infratores
As infrações são sempre alheias
Estamos quase sempre ungidos de inocência e boa vontade
Não há nada de errado em se dar bem
Não hei de me tornar alvo por ser bem sucedido
E assim fecho-me em muralhas
O imperativo é nos isolarmos cada vez mais com nossas migalhas
Que se limpe a cidade: de ruídos noturnos, esmolantes, dos sujos,
Dos caídos, da alegria subversiva das meninas e meninos de rua,
Do vigor da prostituição, do apagado colorido dos bares populares
Dos cães de rua e seus respectivos donos, dos catadores de reciclável, da permissividade boemia,
da essência humana que coabita na coexistência dos diferentes.
Vamos limpar das cidades o desejo humano do prazer do sexo
Permeados em olhos famintos que desejam e comem
O Brasil que tem fome
Nos isolando na reclusa solidão de nossas casas e apartamentos
Gozando a mais profunda perversão de nossos sentidos solos
Engaiolando nossas súplicas e desejos numa oração profana
Cada vez mais egoístas, solitários nefandos
A ordem se constrói de entradas e saídas
Ausgang-Eingang
Nossas cidades estão se tornando sítios dentro de gaiolas
Será que o Ibama conseguirá libertá-las?
Sendo assim, índios, mestiços, negros e nordestinos devem saber
Colocar-se e apreciar as entradas de serviço
Pois isso corrobora para a segurança das pessoas normais. Normais?
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento".
terça-feira, 10 de maio de 2011
6 de maio
Todo mundo tem amigo, menos eu. Menos eu. Que corro e fujo de todos que têm amigos demais.
É um drama de menino, de pequeno.
Já é uma e tanto, já não é de espanto. E corre o tempo, foge a lua.
Fogem todos, inclusive os amigos. Os meus tantos.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Demais
Guardo cinco tubos de creme dental no armário porque tenho receio de que um dia acabe e eu saia de casa com bafo matinal. Eu exagero na força da escovação na tentativa de que meus dentes clareiem. Até que eu sinta algum efeito - que nunca acontece - ou até que minha gengiva retraia a ponto de precisar de uma pasta para dentes sensíveis, mesmo tendo a despensa cheia disso.
Me entrego a três livros e textos e inúmeras referências, mas nada resolve. Não resolveu dessa vez. De novo, mesmo previnido demais.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Como em casa
Passei a pomada no peito e na garganta e o cheiro de casa entrou. Pelas narinas entupidas de saudade que insistem em despejar o que não é propriamente meu, mas tem se criado e existe há algum tempo. E refaço o chá que costumava sarar do que me tornava impuro, mas a salvação não vem em fórmulas. Não vem em receitas. Assim como, mesmo tendo dormido durante duas semanas num mesmo lençol azul simples de algodão que me lembra o de casa, minha cama de anos não reaparece, meu teto de meses não brilha a luz fluorescente fraca que iluminava as madrugadas e a cura da rinite não vem fácil.
Eu moro muito longe, sozinho.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Essa não-amiga
Cada pessoa é um lugar que já não é. Um não-lugar em que não se vive mais e deixa de existir então. Cada pessoa é um lugar que vira outro e ao qual não mais pertence.
E assim como os lugares, as coisas, os sentimentos e laços.
Tão simples como deixar de se falar. Tão praticado quanto nem dizer 'tchau' e não se importar. E digo das pessoas que se vão, dos amigos que se foram.
Para longe, para outro lugar que não mais o meu. Para fora do que era nosso e de anos.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Periafricania - Brasileiroz
"Antigamente, quilombos
Hoje, periferia
(...)
Qualquer periferia
Qualquer quebrada
É um pedaço d'África"
sábado, 13 de novembro de 2010
Mesmo fato, só mudam os meios
(Sobre os vídeos de Tullaluana no Youtube)
Há claramente o chamado 'perigo de uma única história'. Procurem Chimamanda Adichie no Youtube e vejam seus vídeos num encontro promovido pelo TED. Entendam o conceito. Entendam o preconceito.
Mas vocês já viram todos os vídeos de Tullaluana, esta mulher que também tem argumentos contra a Colheita Feliz? Ela tem alguns reclamando de produtos comprados pela internet, mas que nunca realmente chegaram a sua casa, como afirma. Esse sobre o jogo do Orkut é só mais um de reclamação por um serviço mal prestado. E não há absolutamente nada de constrangedor em se fazer ouvir. Aliás, o que há de errado em ligar pro call center de um chocolate que você comprou e que veio mofado?
Mesmo fato, só mudam os meios.
Em tempos de funções pós-massivas (basicamente, o então espectador da notícia subverte o processo de feitura do jornalismo - naquele modelo de emissão unilateral: emissor -> receptor - e se 'torna' produtor da notícia, tendo direito a voz e espaço comunicacional), é extremamente normal que ouçamos de pessoas ditas comuns. Especialmente quando têm razão sobre o que proclamam ou dizem ter.
Tullaluana, ao produzir seus vídeos, assume a voz abafada das palavras de outros usuários do jogo Colheita Feliz, que também, ela diz, reclamam na comunidade do Orkut. Aí, sim, seu discurso vale ainda mais. Se só como única enganada pelo jogo, ela já teria feito valer seu direito como consumidora, agora ela assume o papel social - e quase utópico - de comunicar e se fazer ouvir. Mesmo que o jogo pareça babaca.
Mas não recorrem tanto ao senso comum que diz que a vida é feita de escolhas? Todos decidimos com o que queremos nos distrair. Facebook, Orkut, MSN, Twitter. PlayStation, Wii. Uno, buraco, truco, canastra. Séries, filmes, livros. Academia, corrida, natação. Ela decidiu se divertir com o jogo, sentada na comodidade de sua casa.
Várias pessoas xingaram Tullaluana de gorda, de 'sem ter o que fazer', de preguiçosa e afins. Ela fez outro vídeo - indignada, com toda razão - perguntando os motivos. E justificou: 'eu tenho esquizofrenia, não saio de casa porque tenho síndrome do pânico'. E mostrou diversos remédios, laudo médico impresso e vias de liberação de medicamentos, cedidos pelo governo para curar seu mal, apesar de ilegíveis por falta de foco. Ainda assim, ela não se vale da condição mental para justificar sua euforia ou indignação. Apenas explica o motivo de sua possível obesidade. Tullaluana também deve ter diversos efeitos colaterais com que lidar e algum deles pode ter feito com que ela engordasse. Ou ela é assim mesmo.
E por que ficamos tão indignados quando ofendem um negro, dizem que nordestino não é gente, queimam um índio, batem em gays, apedrejam mulheres, batem em crianças, maltratam animais, mas não paramos - em momento algum - pra nos concentrar no ser humano na essência sem considerar ou relativizar com o tido 'normal' ou com nossas próprias existências a habilidade física e motora, o tamanho, a altura, o gosto, o cabelo, a cor da pele, idade, o quanto ela ganha ou perde por mês ou em qual bairro, cidade ou país mora? Por que precisamos da pena, da dó para manifestar interesse ou apoio a alguém e seu discurso? E por que precisamos saber que ela tem algum distúrbio mental e não pode sair de casa para, então, acharmos OK ela ser gorda? E insistentemente cito Adriana Calcanhotto: 'lanço meu olhar para o Brasil e não entendo nada'.
Tullaluana é, sim, gorda, sofre de esquizofrenia e síndrome do pânico, compra produtos que não chegam em sua casa, publica indignação e busca seus direitos como qualquer um deve fazer ao se sentir lesado. Mesmo em sua casa, ligando de seu telefone e não usando a internet, amplamente disponível, receptiva e sem preconceito para isso. Mesmo fato, só mudam os meios.
Mas vocês já viram todos os vídeos de Tullaluana, esta mulher que também tem argumentos contra a Colheita Feliz? Ela tem alguns reclamando de produtos comprados pela internet, mas que nunca realmente chegaram a sua casa, como afirma. Esse sobre o jogo do Orkut é só mais um de reclamação por um serviço mal prestado. E não há absolutamente nada de constrangedor em se fazer ouvir. Aliás, o que há de errado em ligar pro call center de um chocolate que você comprou e que veio mofado?
Mesmo fato, só mudam os meios.
Em tempos de funções pós-massivas (basicamente, o então espectador da notícia subverte o processo de feitura do jornalismo - naquele modelo de emissão unilateral: emissor -> receptor - e se 'torna' produtor da notícia, tendo direito a voz e espaço comunicacional), é extremamente normal que ouçamos de pessoas ditas comuns. Especialmente quando têm razão sobre o que proclamam ou dizem ter.
Tullaluana, ao produzir seus vídeos, assume a voz abafada das palavras de outros usuários do jogo Colheita Feliz, que também, ela diz, reclamam na comunidade do Orkut. Aí, sim, seu discurso vale ainda mais. Se só como única enganada pelo jogo, ela já teria feito valer seu direito como consumidora, agora ela assume o papel social - e quase utópico - de comunicar e se fazer ouvir. Mesmo que o jogo pareça babaca.
Mas não recorrem tanto ao senso comum que diz que a vida é feita de escolhas? Todos decidimos com o que queremos nos distrair. Facebook, Orkut, MSN, Twitter. PlayStation, Wii. Uno, buraco, truco, canastra. Séries, filmes, livros. Academia, corrida, natação. Ela decidiu se divertir com o jogo, sentada na comodidade de sua casa.
Várias pessoas xingaram Tullaluana de gorda, de 'sem ter o que fazer', de preguiçosa e afins. Ela fez outro vídeo - indignada, com toda razão - perguntando os motivos. E justificou: 'eu tenho esquizofrenia, não saio de casa porque tenho síndrome do pânico'. E mostrou diversos remédios, laudo médico impresso e vias de liberação de medicamentos, cedidos pelo governo para curar seu mal, apesar de ilegíveis por falta de foco. Ainda assim, ela não se vale da condição mental para justificar sua euforia ou indignação. Apenas explica o motivo de sua possível obesidade. Tullaluana também deve ter diversos efeitos colaterais com que lidar e algum deles pode ter feito com que ela engordasse. Ou ela é assim mesmo.
E por que ficamos tão indignados quando ofendem um negro, dizem que nordestino não é gente, queimam um índio, batem em gays, apedrejam mulheres, batem em crianças, maltratam animais, mas não paramos - em momento algum - pra nos concentrar no ser humano na essência sem considerar ou relativizar com o tido 'normal' ou com nossas próprias existências a habilidade física e motora, o tamanho, a altura, o gosto, o cabelo, a cor da pele, idade, o quanto ela ganha ou perde por mês ou em qual bairro, cidade ou país mora? Por que precisamos da pena, da dó para manifestar interesse ou apoio a alguém e seu discurso? E por que precisamos saber que ela tem algum distúrbio mental e não pode sair de casa para, então, acharmos OK ela ser gorda? E insistentemente cito Adriana Calcanhotto: 'lanço meu olhar para o Brasil e não entendo nada'.
Tullaluana é, sim, gorda, sofre de esquizofrenia e síndrome do pânico, compra produtos que não chegam em sua casa, publica indignação e busca seus direitos como qualquer um deve fazer ao se sentir lesado. Mesmo em sua casa, ligando de seu telefone e não usando a internet, amplamente disponível, receptiva e sem preconceito para isso. Mesmo fato, só mudam os meios.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Negros
"A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
(...)
Os negros na cozinha
Os brancos na sala
A valsa na camarinha
A salsa na senzala
(...)
Os brancos são só brancos
Os negros são azuis
Os brancos ficam vermelhos
E os negros não
Os negros ficam brancos de medo
(...)
A música dos brancos
A música dos pretos
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
(...)
Os negros na cozinha
Os brancos na sala
A valsa na camarinha
A salsa na senzala
(...)
Os brancos são só brancos
Os negros são azuis
Os brancos ficam vermelhos
E os negros não
Os negros ficam brancos de medo
(...)
A música dos brancos
A música dos pretos
(...)
A pele dos negros é negra
Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada"
A pele dos negros é negra
Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada"
domingo, 27 de junho de 2010
Pela misericórdia
Sou um lobo. Tenho pelos por todo o corpo, mas meu coração é limpo. E embora meu corpo seja palco do que não devia, meus órgãos não se estragam. E nada em mim fede, além do estômago solícito que se desfaz em horas de jejum - o não religioso e sem propósitos, a não ser por menos gordura.
E não convivo com a vida que posso ou mereço - isso é decerto sublime.
sábado, 24 de abril de 2010
Isso
O discurso não se torna verdadeiro pela quantidade de vezes que você repete ou pelo tom de voz que usa. Nem pelo tanto de lágrima que derrama nem por causa da sua mão que não treme, transmitindo segurança.
A verdade está em quem você é e em como te enxergam.
Só dói muito ser visto como impuro.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Nº 5
A desconstrução das pessoas
A invalidez da amizade
A negativação
Anulação de si mesmo
Do outro, do qualquer, do fulano, daquele ali
De quem ninguém nota
Mas a decomposição leva tanto tempo quanto construir
- e dura nada
Consumir
Um ponto
A invalidez da amizade
A negativação
Anulação de si mesmo
Do outro, do qualquer, do fulano, daquele ali
De quem ninguém nota
Mas a decomposição leva tanto tempo quanto construir
- e dura nada
Consumir
Um ponto
terça-feira, 23 de março de 2010
Sobre osteoporose, reumatismo e afins
Uma guria do curso de inglês me disse "você é velho". E bastou pra que eu pensasse que passei tempo demais com gente mais velha e me acostumei com a idéia de não ser novo. E daí que alguns amigos dizem que sou mesmo um velho e que não bebo, não saio, não danço, não gosto de festa.
Mas eles têm motivos. E a menina?
Ela tinha 12 anos. A diferença de uma década me soa também estranho, mas não chego em ninguém com 32 e digo 'ei, tia, tá velha, hein'.
Do tempo, eu sei. Do cansaço, da falta, da saudade, da dor. De quanto levam uma vida e o trabalho das 14h às 20h30 nonstop em pé. E de como as pessoas dizem o que dizem por apenas dizer, sem querer levantar discussão alguma.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Calor
"Tarde sem nuvem
Cinquenta graus
(...)
Noite sem ninguém
Nada se mexe
(...)
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo parece
Derreter"
sábado, 26 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Tipo caderno de viagem
Na segunda, jantei na casa de Rosana Lehmberg, uma brasileira simpática pra caramba que conheci na International Baptist Church em Hamburg. A caminho de Harburg, onde ela mora, desci na Hauptbahnhof para ver a área.
Hamburg Hauptbahnhof
IBC Men's Group @ Lehmberg's
Hoje fiz um boneco de neve e ajudei a ornamentar árvore de Natal (me salvei de ouvir Simone, mas de resto, vem tudo). Ficou menos parecido com um aborto do que o último que eu fiz.
sábado, 19 de dezembro de 2009
A preço de banana (importada do Brasil)
Não sei porque eles cobram tão pouco nos filmes - porque dá um trabalho filho da mãe -, mas eu to cobrando 20€ pra tirar neve da calçada.
As fotos da festa ficaram ótimas
Cortesia pros Schildeis
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Finalmente
Descobri que é mais fácil fazer castelo de areia do que boneco de neve.
Kringelkrugweg
Crocs da casa
Lago congelado
Boneco de neve supimpa
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Duas histórias pequenas
Na outra semana, um evento para idosos em Norderstedt e eu fui de convidado. Tinha um casal simpático do meu lado, me explicando em alemão o que era dito no palco em alemão arcaico. Tinha uma mulher entalada com café sem poder tossir, e eu segurando a risada. Tinha a gordinha atrasada na coreografia da apresentação, e eu segurando a gargalhada. Uma mulher dormindo, se apoiando no próprio braço. E eu pocando, prendendo o riso.
Rodamos Berlin em dois dias e no terceiro dia, descansamos. E ela disse que a cidade não era boa e não era bonita e que Hamburg era melhor.
Encontrei com Jorge Amado numa esquina de uma avenida cheia de histórias. Estavam ele, Gabriela, o cravo e a canela, mas falavam outra língua, não era a minha.
Procurei carne de boi no cardápio do restaurante indiano. Comi um prato chamado Taj Mahal. Não paro de lembrar do gosto do carneiro cozido, do arroz com uma erva aromática e do molho doce, e a vontade de dar aquela vomitada vem sempre.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Alô, Bahia, comi feijão
Tinha pensado em falar de outras coisas, mas hoje vai ser feijão.
Depois da frustração de uma torta de abacaxi mal assada (aka solada) da segunda semana na Alemanha, dois resultados me vieram: descobri que forno elétrico é mais fraco do que fogão convencional e surgiu o medo de cozinhar um brigadeiro que fosse aqui.
Nessa semana, Margrit me apareceu com dois pacotes de farinha de mandioca da Índia e um pote de feijão cozido de Portugal e me disse que o almoço da sexta seria por minha conta.
Hoje enfrentei a cozinha e saíram feijão refogado, purê de batata, farofa de manteiga e carne de porco frita e nenhum resultado desagradável. Posso dizer que estavam bons demais e ouvi 'sehr, sehr gut, Iulo' (bom, muito bom, Iulo) umas 5 vezes.
Temperando
Margrit e Oma
Oma
sábado, 14 de novembro de 2009
Pessoa s
Não me dê o que vestir, comer, babar, usar, mexer. Eu quase não estou para nada disso, não me viro com nenhum desses artifícios se tiver com quem conversar e ser gente.
Não ir ser selvagem como Pessoa, porque sei, sim, sentir.
Sei ser humano e conviver com meus irmãos na terra, os homens. Por mais que chegue a doer, a enjoar, a enojar, a roçar, a ranger. Por mais que suas línguas firam e não saibam confessar de si nem purificar ou abençoar.
Ainda que em vão trabalhem, busquem na madeira oca a verdade e teatralizem simpatia, bem consigo gostar.
De todas as coisas, gosto mais das pessoas. Mais do que os lugares, as pessoas.
Mais do que tudo, gosto delas.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
2 days in Paris
Logo após o pouso em Paris, conheci Jeanine, uma menina bastante simpática da Namíbia, e, tocando conversa, fomos parar em algum terminal na tentiva de pegar nossas bagagens. Sem entender nada do que o cara do balcão me dizia (ele insistia no francês), eu já tremia e gaguejava. Alguém da fila nos salva dizendo que ali era só para embarque de conexão. Boa parte da fila ria. E eu ria porque, pelo menos, não tinha passado vergonha sozinho.
Andando só por Paris, claro, me perdi. É muito estranha a sensação, o que me aconteceu várias vezes, ainda que com um mapa. Senti falta do meu iPod touch, que caiu na privada, em todas as vezes em que andava sem direção, querendo saber em que mierda de rua eu estava, já que o mapa não mostrava todos os nomes. Não digo que gostaria de me perder de novo, mas gostei daquilo.
Depois de muito não saber qual caminho seguir, finalmente cheguei a Notre-Dame. Lá, conheci Rebecca, que é inglesa, e Melanie, australiana. Depois de quase três horas de conversa, marcamos de nos encontrar no sábado no começo da tarde embaixo da Torre Eiffel pra conhecer mais da cidade.
Pela manhã, fui ao Pompidou ver a exposição La Subversion des Images, com muitas peças de Cartier-Bresson e de Brassaï.
Saí de lá e fui ser o guia turístico - eu tinha feito quase o mesmo percurso na sexta -, como tinha combinado. Subimos a Champs-Elysées toda, compramos no Mc Donald's e fomos comer no Arco do Triunfo. Descemos depois para o Concorde, fomos a La Madeleine. Dessa vez, não me perdi, eu já tinha decorado os lugares.
Depois, as meninas seguiram para visitar o Moulin Rouge, mas eu tinha de voltar pra casa. O caminho até o Le Marais foi complicado, foi quando eu me perdi de fato. Cheguei a Opéra, passei pela Galeries Lafayette, rodei tudo até achar qual avenida tinha de pegar. Peguei um ônibus até o Pompidou, que é bem perto de casa. Perdido, fui parar atrás do Louvre, quando deveria ter seguido a direção oposta. Sem querer, refiz o tour pelos pontos típicos.
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