quinta-feira, 9 de outubro de 2014

De modo

A pálpebra deu de piscar involuntariamente e insistentemente
como uma resposta para a vida que resolveu parar abruptamente. 
Agora há de se reprogramar, 
pois inesperadamente
veio a necessidade outra vez.
Como se já não fosse claramente
o que habitava meu desejo
ininterruptamente.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Para não deixar saudade

Eu me vou e é como se meu esforço em ir te trouxesse dor. Em nada deveria lembrar tal coisa. Última verdade que eu te entregaria seria sofrimento. Mas aqui já não caibo tampouco caibo em mim. E permanecer seria vegetar - não mais consigo.
É pela ausência de palavras naquele nosso abraço molhado e salgado que agora escrevo. Como se naquele momento sermos mudos fosse o mais correto a se fazer. (Mas agora já talvez não seja). A fim, portanto, de que se possa dizer do que não foi antes posto em verbos. 
Eu me vou. Você, um dia, vai me ver. 
Talvez a gente ainda tenha outros tantos abraços salgados a enfrentar. E outros tantos não-ditos e textos e olhos vermelhos. Sem regra, sem obrigação, sem cobrança, sem tristeza. Com amor.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Caras peculiaridades com fins de apreciação

O momento em que se acendem as luzes dos postes da rua pequena onde eu morava. O cheiro que vaza das plantas e da terra quando molhadas. Tão marcante quanto o aroma de uma tangerina quando é aberta em qualquer ponto distante de um ambiente, fazendo-se notada por todos. Perceptível e incrustado como o líquido de sua casca ao tocar as pontas dos dedos de quem a manuseia. O "dorme aqui". Os últimos minutos de um fim de tarde que deixam o céu entre um laranja-Cebion e outros tons-Ursinhos Carinhosos. A gentileza no ato de duas jovens senhoras de servir a uma menina, confiada por sua avó ao motorista do ônibus, um remédio para enjoo a fim de que ela possa suportar quase doze horas de estrada até encontrar sua tia, que vai lhe criar. O abacaxi doce. O beijo e o abraço nutridos de verdade e de timidez quando meu avô me recebe "você é sempre bem-vindo". O olhar direcionado de atenção entre momentos no sexo que significa que não estamos sendo somente animais. A displicência com o que tenta dizer a etiqueta, o fazer estar à vontade. O "fica mais". O atalho no terreno do meu caminho diário que me poupa alguns minutos de caminhada. E a caminhada de volta pra casa quando o sol já está baixo. O relevo que se mostra no contraste com o céu mais iluminado pela lua. O gole que marca a constatação do "estou alto". Conversas que me dão uma certa energia que me mantém coeso e humano. O frio numa praia pra me fazer repensar meu gosto por praia. O fim.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Ordem do Dia

A ordem é manter a ordem. Mas qual ordem? E o que é ordem? 
A que estampa a bandeira nacional, é dessa ordem que falam?
Eles estão cumprindo ordens. Quais? Maltratar, avançar sobre pessoas e fazer parar manifestações: são essas as ordens?
Manifestar-se é também ir contra uma ordem. Contra o que foi decretado em algum nível. E dizer que não é a favor dos decretos é desorganizar a ordem?

Contra a ordem (de se retirarem das ruas), clamam.
Contra a ordem (de imposição de taxas e preços e de todo um sistema), bradam.
Contra a ordem (de amar ao próximo e o amor é mais amplo, por isso cabe o argumento), apanham.

São mais questionamentos do que respostas porque são mais dores e ordens - dolorosas, volto a dizer - cumpridas sobre corpos e ideias que querem se fazer valer.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A ilha - seja ela qual for

O poste em frente a meu prédio, que dá na janela do meu quarto, explode um pouco a cada momento quando chove. Imagino que escorra pra dentro do aparelho algo que não pertence ali, por isso o choque. O incômodo provoca esses desencontros.
Estou caminhando pela pracinha do Hippo, é verão e transpiro feito um porco. Chamo de Alto Centro e me sinto muito bem ali apesar de não pertencer. Estou sentado num banquinho, vendo a floricultura fechar, cachorros e seus donos caminharem, sentindo o dito Vento Sul soprar forte como de costume. Espero dar sei lá que horas, mas espero que seja o quanto antes porque caminhei não sei de onde até aqui, procurando o lugar do estágio. Faço uma ligação, tento agendar vôos e valores.
Daí que resolvo descer a rua do mercado, mas sempre me perco naquele Centro. Acho sempre que estou na rua do meu restaurante mexicano favorito, que dá ali na outra pracinha que fica perto dos bombeiros, que está perto da rua da pizzaria barata, que desemboca na Rio Branco. Não sei, nunca entendi bem e sempre me perdia naquelas ruas. E aí que saem mil pessoas, tomam café, abrem embalagens de comida pronta, conversam alto. 
Estou cansado, o calor continua a imperar, o ar que agora transita tem a mesma velocidade que meus passos, não refresca nada. Entro no carro, desço o vidro, coloco a mão pra fora, faço o vento circular. Sou um tanto feliz neste momento, mesmo sem visitar praças, bares distantes de nomes estranhos, batatas fritas com cheddar maçaricado, espumantes com suco de pêssego, sinucas, burritos, temakis infinitos, cafés, sobremesas roubadas, trotes, cinemas pequenos, shoppings distantes, mesmo no continente. Mesmo enxergando todas as árvores como árvores desenhadas em gibi, todas iguais. Fui feliz mesmo com tantos pontos e pontes, que hoje me distanciam daí. Fui feliz porque nunca precisei cheirar postes.
Tenho sentido uma dor imensa na nuca, não sei de onde vem, mas desce até onde encontra o final do pescoço. Também carrego ombros cansados, uma escoliose ferrenha, pulso machucado, tornozelos fodidos e uma garganta marcada por uma leve inflamação. Não é gratuito dizer, são silêncios internos manifestados. "Não sei viver com silêncio resolvendo as coisas", eu digo. "Eu escuto seus silêncios", leio. Podem ser declarações impressas em meu corpo, é um conduíte estragado que resolveu dar curto em plena época de necessidade da melhor condição possível. Apenas deveria funcionar para mim mesmo.
Segunda é um dia incomum e eu deveria dizer coisas, mas não quero explodir como faz o poste em frente à janela de meu quarto quando chove.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sobre 2009 ou já 2010


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Exoesqueleto

Exaltam o melhor, pontuam o melhor, mas gosto não é algo particular? Constroem o belo, o bom e o justo, mas tudo isso é tão privado que nem a retórica de Aristóteles pode me dizer o contrário. Aliás, Aris-who? Exaltam-no. Correm para aquela ridícula exaltação dos melhores. O campeonato desenfreado em busca do melhor em nada. 
Não posso competir em qualquer categoria, não tenho grandes músculos desenvolvidos ou definidos. Ainda não. Meus músculos são tão gentis quanto os do meu coração, que se desfaz por vida quando me jogam palavras duras e me cagam qualquer esperança de um dia dar certo. 
Murcho por dentro e minha casca às vezes permanece inteira, mas por vezes ela vaza o que está dentro - embolado, amassado, mas ainda partido e desfeito. É como se eu tivesse um exoesqueleto que sustentasse uma certa dureza e rigidez, exatamente o contrário do que está acontecendo dentro de mim. E não é uma capa, não é um teatro fake apesar de que a vida é também teatralizar para não se deixar apagar. 
Eu sinto tudo, murcho por dentro e não tem como, quase sempre, deixar de enrugar por fora.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Brigadeiro ou qualquer outro que o valha

- Boa tarde, tudo bem? Quanto tá o brigadeiro? 
- Tudo bem? Custa um real cada.
("Que barato!", penso enquanto escolho algum dos doces por cima do vidro do balcão e levo um tempo vendo qual é o mais vistoso, bem feito e bem redondo, de granulado bem assentado e resolvo pedir). 
- Pode ser esse? - ela aponta pra um. 
- Pode, sim. Tá bonito, tá bem feito... Mas olha, moça, esse daqui, quando você pegou com o utensílio, deu pra ver que no lado tá mordido já. Tem como trocar por outro? 
- Beleza. E esse? 
- Mesma coisa, moça. 
- E esse? 
- Mordido. 
- Esse? 
- Mordido também, moça. Ali no cantinho, tá vendo? Tem até marca de dentes no lado de trás, apesar da parte de cima estar linda. 
- E esse aqui? Não tem mais tantos aqui, você já descartou um monte... 
- Errr... Esse parece ótimo, mas quando você tira da forminha de papel, tá só a capa, tá vendo? Onde era pra ter recheio tá vazio. 
- É... - diz a atendente, como que concordando comigo. 
- Ih, moça, acabaram as opções, foi? 
- Só tem agora esse outro tipo aqui que custa mais caro. 
- Quão mais caro? 
- Custa R$1,70. 
- É? É que eu to sem dinheiro agora e queria mesmo um brigadeiro. (A atendente me olha como quem não pode fazer nada por mim e um silêncio constrangedor se instaura nos dois lados do balcão) 
- Bom, uma mão lava a outra, o mundo gira, a gente nunca sabe o que acontece lá na frente, então leva esse de um e setenta por um real só. 
- Obrigado, moça, só que esse é maior, mais vistoso, mas continua mordido embaixo, não tem nem metade do outro...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Porque pensei aleatoriamente

No final de semana, tudo no mesmo lugar, ainda que alguns grãos de poeira tenham se depositado aleatoriamente aqui e ali. Sem pretensões de ocuparem quaisquer espaços, se amontoam. "Meu apartamento parece tão bagunçado que nem parece meu", eu penso. Aí vou ao banheiro e vejo que tenho meus fios de cabelo branco, tenho feios fios que nem se parecem com o resto. Nem por isso deixam de ser meus. E tenho esse lado chato, de reserva, que doso com os momentos de pura franqueza de alma e abertura pra vida que me deixam ser quem eu sou sem incomodar ninguém. Espantosamente. Mas nunca tem ninguém, por isso a falta de incômodo. 
Decido escrever frases soltas no Moleskine imaginário. Guardo frases soltas na cabeça. Guardo pra depois despejar num Moleskine ainda não escrito, naquelas ditas folhas especiais que deveriam guardar algo que significasse muita coisa. Registro minha vida, minha pesquisa. Deixo guardadas linhas que quero seguir, mas não faço dele diário. Escrevo para ninguém. 
E resolvo sair com você pela cidade que nem conheço a procura de alguma coisa que eu nem sei ao certo, mas vou porque confio na sua amizade até então. Não tem mãos dadas, não tem calor humano, não tem olhos trocados. Visto um moletom e uma jaqueta e fotografo, mesmo que sem câmera, aquelas esquinas que a gente dobrou sem se preocupar em marcar território porque nada ali é meu. "Nem tem como ser, não tem como ser", repito pra mim como num mantra. Não temos nada afinal. Mas que coisa maluca é essa de querer ter alguma coisa? Você nutre por mim algo não declarado, que só descubro meses depois quando você já definiu como não-existe-mais-nós.  
A luz está baixa, pessoas conversam alto, estou num pub. Alguém tenta falar espanhol comigo. "Yo no hablo español, desculpa". E tenho de repetir mil vezes isso ao longo da noite, certamente sem ser entendido completamente. Luz baixa, pessoas conversam alto, estou num barzinho. Alguém tenta falar alemão comigo. "Ich kann kein Deutsch". E sou incomodado pela impossibilidade de dizer de mim, de conversar com esse alguém que nem sei quem. Um alguém personificado, mas não individualizado ainda. Um alguém tipificado: bêbado, incômodo e insistente. 
Agora estou viciado numa única música que me lembra os anos 90, tem um quê da música de abertura de Twin Peaks e sinto um certo medo. Medo de querer demais e não ter. Medo de me apressar. Medo de avançar minha escrita e não ter mais o que escrever. E me perder e ser sem rumo e sem prestígio, logo, não mais no caminho certo - no que dizem ser o certo. Me mandam tomar florais, dizem que vão aliviar meus receios. Eu só quero saber se vêm, dentro do potinho dos florais, passagens aéreas e quantias exorbitantes pra que eu possa sofrer menos, mas pelo menos que seja em algum lugar frio e que tenha o branco da neve pra amenizar as fontes loucas de informação que meio que me cegam de tanto que dão a ver. "Relaxe", digo pra mim mesmo. E falo pausadamente, como se digitando, "não se cobre escrita perfeita em teclado de celular". 
Tudo isso porque pensei no frio, nas tantas letras que tenho idealizado, tantos títulos que tenho sonhado e tantos grãos de poeira que tenho inalado e não mais me entalam as narinas, mas pesam o peito. Estou curado da rinite, mas não de mim.

sábado, 8 de setembro de 2012

Academia robotizada

Tento fazer um artigo e não escrevo como quero, não posso - dizem - escrever como escrevo. Sento, pego o laptop, digito palavras que nunca uso. Onde estou eu nessas letras, nessas linhas que formam juntas treze ou até quinze páginas? Não me encontro. Roteirizo, separo partes, atribuo subtítulos. Teatralizo o conhecimento para facilitar o entendimento do que quero dizer - para não parecer germânico demais, para não ficar desordenado. Não sou linear. Escrevo a introdução, paro, avanço a pauta, estou nas considerações finais. Adianto o resumo antes do trabalho finalizado. Questiono meu pertencimento à academia. Piro. E volto a escrever como se não fosse eu, como agora.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Vocês

Tem você que fuma todo dia, religiosamente, seu beck e eu nunca vi seu rosto, só conheço o cheiro que desce até meu apartamento sem respeitar madrugadas ou horários de almoço nem minha fome criada por sua larica de carne de sol frita com bastante alho e azeite extra virgem. Você e seus amigos do clube da fumaça que arrastam carros e motos da garagem e deixam o portão do prédio aberto. Minha única referência sobre você é essa, não me leve a mal. Não te julgo nem te absolvo, mas apagaria sua fumaça se pudesse. Assim como teria apagado a sua quando você insistiu em fumar algumas carteiras desde que fui embora e continuou a fumar enquanto estive perto. Você, que nunca mais encontrei igual e talvez nunca mais encontre. E você, que fuma desde que saiu de casa e largou a faculdade. 
Você, daquele pacto estúpido de alguns anos, que eu nem sei em qual tempo deveria estar agora nem sei por onde anda. E você que amargou minha amizade e também sumiu, mas vez ou outra temos de retribuir sorrisos amarelos de cumprimento e permanecer num vácuo absurdo, numa falta imensa de seja lá o que for que falta. "Quando eu mais precisei de você, você não estava lá", te disse certa vez. Nem sei relatar o tanto de saudade que tenho de quando estar perto era algo imensamente bom e eu não fazia ideia. Lembro de quando você, super cedo, se levantou e me levou ao aeroporto e mal dizia qualquer palavra enquanto eu derramava quilos de letras. Mas, ainda que estivesse agoniado com aquilo, você me deixou falar um monte. Não sei, lembrei disso. De mim, verborrágico. 
Vocês, que não passam dos 1.75m, mas têm egos imensos e línguas imperdoáveis. Que comem carne e é como se se enchessem de ainda mais sangue e ódio e raiva e rancor. E tem vocês de quem nem me lembro, por mais que eu não me esqueça de ninguém. Você que tem o amor libertário e libertador, e eu acho incrível sem impedimentos simples e com compromisso sério. Você, que tem uma dor que eu entendo por mais que nunca tenha vivido isso, mas cuja dor se compara às que eu tive e pra quem eu digo que, não porque vi aquebrantado (não queria usar essa expressão), mas porque enxerguei mais do que tem aí dentro, eu passei a gostar ainda mais de você. 
Já em você, meus dedos não deixaram marcas, nada meu te rasgou, a não ser algumas palavras que te partiram a esperança e viraram dor eterna e mágoa profunda que você não consegue deixar ir embora e insiste em me tornar ciente disso por mais que eu já saiba de cor o discurso. Tem você que é leve e nunca se importou com nada, que me levou sem peso por algum tempo e sempre teve mais clareza do que eu. Sua música e sua voz que não me deixam parar de refletir do peso das coisas, dos argumentos e das porras das pessoas que insistem em abafar sonhos. 
Mas eu decidi dizer de vocês para, então, poder dizer de mim. Eu não guardo mágoa, não guardo rancor. Mas tem essa coisa aqui que eu não guardo, mas ela existe e não consigo negar: a dor de ter sido esquecido por todo esse tempo. Negligenciado e silenciado por anos em que, mesmo dizendo a todos e até a mim mesmo que não me importava, tudo doía. Uma vez eu te amei tanto e você só notou depois de tanto tempo, quando já nem me amava metade. 
Várias vezes contemplei sua beleza, seu cabelo liso de fio pesado, mas naquele dia, só naquela noite em que a gente teve de pegar um ônibus e eu não parava de ser carinho, você se deu conta de que havia amor ali. Você ainda comentou em tom de pena, 'percebi que você me ama de verdade'. Pra mim, foi uma certa dor mascarada de um certo elogio e eu só pude concordar no momento. Eu não era frio, eu não analisava nada, eu vivia para e por você como nunca havia vivido outra coisa. Eu era celibatário de você. Um escravo desse sentimento que ainda existe, mesmo que sem correntes, sem dores, sem vida, sem força. Mesmo sem te amar. 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

União e falta

decidiescreverassimeviquenãotinhasentidonãoser
escreversemespaçonemponto
Onde nem eu caibo mais.

sábado, 30 de junho de 2012

Conversa impossível

- Não faço ideia de como esse novo cara sabe coisa que nem eu sei sobre você. 
- Ele viu foto minha quando pequena. 
- E como foi isso? 
- Cabe saber? 
- Cabe ainda sofrer? 
- Não sei. Eu estou ótima. Se quiser, posso fingir ser mais feliz agora do que quando estava com você e ser tão convincente, tão real, tão eloquente nas minhas colocações que você vai se sentir um merda. 
- Tenho me sentido assim mesmo sem você ter aberto a boca. 
- É que às vezes eu deixo sinais... 
- Coletei todos eles. 
- É por isso que vez ou outra você chora? 
- Não por eles que vez ou outra te deixo saber que choro. 
- Então por quê? 
- Se eu te der um sorriso amarelo, disser que to ótimo, fingir felicidade e afins, vai fazer sentido pra você?
- Não. Só vai me machucar. 
- Por quanto tempo? 
- Como posso saber? Nunca mais nada doeu.
- Que sorte!
- Dor é a gente que inventa, dizem por aí. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Duo Paixão

Não sigo a instrução da caixa de bolo que diz pra comer ainda quente. Sirvo a mim mesmo com o que quero e tenho: sua ausência. O prato cai. Barulho forte. 'Já se passaram das 22h', penso. Pedaços brancos por todo lado. 'Porcelana corta tanto quanto vidro', digo eu enquanto recolho os estilhaços do chão. 'Moro no primeiro andar, ainda bem', penso. Salvei a fatia do bolo pra deixar o mundo cair. E se partir, se dissolver em mínimos pedaços. Salvei o bolo frio, sem bom gosto e sem vida pra deixar o recipiente se espatifar. 
Corro de tudo que pode me prender porque tudo quebra por mais bonito, limpo, cerâmico que seja.

sábado, 9 de junho de 2012

Preconceito nosso de cada dia

Quando eu desistir dos humanos, é porque achei finalmente que eles fedem mais do que eu - e, na verdade, fedo tanto quanto eles. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Minha existência solitária dói

Sou só lágrimas e dor e pontadas no peito e falta de vida por onde rastejo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Reforma

É como se a britadeira que inferniza meu silêncio matinal perfurasse meu coração na mesma intensidade com que afunda o asfalto da avenida.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Comunicação

Pulo linhas, digito trocados, não sei mais publicizar. Carrego por longos períodos os olhos na tela, fujo do tema, penso besteira. Corro para uma ligação, invento que fumo, invento beber café, invento festejar. Eu não sei mais materiarizar. Apago a cinza, queimo o cérebro. Apago o arquivo. Acabou. É hora. Vou divulgar o não materiarizado: minha falta de prudência em criar enunciados e sentenças que façam sentido e sirvam de algo, que sejam materiarizáveis.

domingo, 21 de agosto de 2011

Definições e a falta delas

Em sonhos, tenho uma aflição absurda e uma verdade tão bem construída, que o peito pula sem parar até parar o medo. E acho que vou capotar e murchar na frente de todo mundo até virar uma verruga, um sinal, uma marca, um ponto. E sou essas características.
Me dizem que não sou daqui, que sou do mundo. Mas nem eu sei de onde, nunca me dizem onde. Sei que não pertenço aos lugares em que fico. Não sei permanecer onde estou, busco sempre mais, procuro o novo. Ando em linhas aparentemente desconexas, mas que fazem muito sentido pra mim. Só vou saber quando for e voltar pra dizer que lá é meu lugar.
Por aqui, param-se serrarias, serralherias, construções. Fecha-se todo o comércio, resta a sorveteria. A noite dura mais, pessoas saem mesmo sob o desumano frio. Vestem-se com novos trajes, não sentem nada. Nem o bafo alcóolico que sai de si próprios. Festejam algo, dançam algo. Fizeram de hoje feriado. É um dia diferente numa rotina. Fujo dela.
Gosto de viajar e do quanto da visão do mundo que a janela do ônibus me dá. Estar à altura da maioria das árvores e arbustos dessa vegetação de uma quase caatinga, desse quase-sertão. Viro viajante, sou caminhoneiro, sou frases de pára-choque, sou passageiro. Sou Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo. Sou personagens-tipo. E não me defino, não sou nada. Sou cactos, mato seco, terra avermelhada, sou pequenos montes e estrada. Sou buracos, sou tapete. Sou pneu e poltrona. Cercas. Perdi. Sou eu mesmo tudo isso e dizer aqui é só mais repetição da vida. Pedágio, troco. Representações de mim.
O dendê que borbulha no acarajé, o cheiro de coentro e dos finais de tarde com meio-tons. Mulheres de pequenas cidades que lavam roupas em córregos e rios. Meninos e meninas que correm como crianças pelas ruas. O óleo fresco que tempera saladas e corpos e bezunta de uma certa leve esperança os que ainda carregam vida sob a radiação. O sol de março que arde as peles negras. Bocas afro, narizes, cabelos. E mãos de traços tão próprios, de belezas negras. Escura - longe do bizarro argumento racista - profunda raiz africana. Também isso. Podia me chamar Amarula, Guiné, Nigéria, Marrocos.
Aqui chama-se Bahia. Eu, no entanto, chamo de casa. Ou de mim mesmo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Distorção

Não enxergo mais bem. Lentes não funcionam em mim nem cabem. De tudo, me sobrou o sono e o tempo de folga e isso virou cotidiano, sem mencionar os efeitos da falta. Estou só. Viro algo que não sou. Vago por ruas, cheiro ladrilhos, sou um cão sem raça, sem coleira. Fuço lixeiras, rasgo sacolas, como qualquer coisa que cheire menos podre. Não sei definir o que faço, apenas faço. E tenho feito tão pouco, só sigo rastros e farejo tudo procurando força e energia em algum resto de existência.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estado de Sítio

"As cidades se fecham em si mesmas
O argumento da degradação das relações humanas
Cria o elogio à violência
Que além de espiada e pensada
Coloca-se cada vez mais presente
No grande mundo através de guerras
No mundo interior na forma de discriminação
Uma série de pequenas maldades
Se destilam em nossas almas e mentes
Desejos íntimos de execuções sumárias
Admiração a justiceiros genocidas
Vem a nos preencher o interior vazio da consciência
Como um elixir entorpecente
Transborda nossas grutas interiores
Com desejo de morte e odor pútrido
Pra tudo aquilo que não entendemos
Que não conhecemos
Sem que isso crie em mim ou em você
Necessidade alguma de maior compreensão
Nem mesmo capacidade de sentir ou colocar-se no lugar do outro
E novamente tomados de desejos egoístas e assassinos
Clamamos por penas de morte e chacinas em nome de segurança
Cidades cada vez mais fechadas, condomínios, ruas particulares
Milícias, shoppings e torres de vidro blindado
Que nos assegurem de nossa própria vontade demente
De punir infratores
As infrações são sempre alheias
Estamos quase sempre ungidos de inocência e boa vontade
Não há nada de errado em se dar bem
Não hei de me tornar alvo por ser bem sucedido
E assim fecho-me em muralhas
O imperativo é nos isolarmos cada vez mais com nossas migalhas
Que se limpe a cidade: de ruídos noturnos, esmolantes, dos sujos,
Dos caídos, da alegria subversiva das meninas e meninos de rua,
Do vigor da prostituição, do apagado colorido dos bares populares
Dos cães de rua e seus respectivos donos, dos catadores de reciclável, da permissividade boemia,
da essência humana que coabita na coexistência dos diferentes.
Vamos limpar das cidades o desejo humano do prazer do sexo
Permeados em olhos famintos que desejam e comem
O Brasil que tem fome
Nos isolando na reclusa solidão de nossas casas e apartamentos
Gozando a mais profunda perversão de nossos sentidos solos
Engaiolando nossas súplicas e desejos numa oração profana
Cada vez mais egoístas, solitários nefandos
A ordem se constrói de entradas e saídas
Ausgang-Eingang
Nossas cidades estão se tornando sítios dentro de gaiolas
Será que o Ibama conseguirá libertá-las?
Sendo assim, índios, mestiços, negros e nordestinos devem saber
Colocar-se e apreciar as entradas de serviço
Pois isso corrobora para a segurança das pessoas normais. Normais?
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento".

terça-feira, 10 de maio de 2011

6 de maio

Todo mundo tem amigo, menos eu. Menos eu. Que corro e fujo de todos que têm amigos demais.
É um drama de menino, de pequeno.
Já é uma e tanto, já não é de espanto. E corre o tempo, foge a lua.
Fogem todos, inclusive os amigos. Os meus tantos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Demais

Guardo cinco tubos de creme dental no armário porque tenho receio de que um dia acabe e eu saia de casa com bafo matinal. Eu exagero na força da escovação na tentativa de que meus dentes clareiem. Até que eu sinta algum efeito - que nunca acontece - ou até que minha gengiva retraia a ponto de precisar de uma pasta para dentes sensíveis, mesmo tendo a despensa cheia disso.
Me entrego a três livros e textos e inúmeras referências, mas nada resolve. Não resolveu dessa vez. De novo, mesmo previnido demais.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Como em casa

Passei a pomada no peito e na garganta e o cheiro de casa entrou. Pelas narinas entupidas de saudade que insistem em despejar o que não é propriamente meu, mas tem se criado e existe há algum tempo. E refaço o chá que costumava sarar do que me tornava impuro, mas a salvação não vem em fórmulas. Não vem em receitas. Assim como, mesmo tendo dormido durante duas semanas num mesmo lençol azul simples de algodão que me lembra o de casa, minha cama de anos não reaparece, meu teto de meses não brilha a luz fluorescente fraca que iluminava as madrugadas e a cura da rinite não vem fácil. 
Eu moro muito longe, sozinho.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Essa não-amiga

Cada pessoa é um lugar que já não é. Um não-lugar em que não se vive mais e deixa de existir então. Cada pessoa é um lugar que vira outro e ao qual não mais pertence.
E assim como os lugares, as coisas, os sentimentos e laços. 
Tão simples como deixar de se falar. Tão praticado quanto nem dizer 'tchau' e não se importar. E digo das pessoas que se vão, dos amigos que se foram. 
Para longe, para outro lugar que não mais o meu. Para fora do que era nosso e de anos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Capricórnio e Câncer

Morar abaixo dos trópicos me fez sentir falta de estar entre eles.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Periafricania - Brasileiroz

"Antigamente, quilombos
Hoje, periferia
(...)
Qualquer periferia
Qualquer quebrada
É um pedaço d'África"

sábado, 13 de novembro de 2010

Mesmo fato, só mudam os meios

(Sobre os vídeos de Tullaluana no Youtube)
 
Há claramente o chamado 'perigo de uma única história'. Procurem Chimamanda Adichie no Youtube e vejam seus vídeos num encontro promovido pelo TED. Entendam o conceito. Entendam o preconceito.
Mas vocês já viram todos os vídeos de Tullaluana, esta mulher que também tem argumentos contra a Colheita Feliz? Ela tem alguns reclamando de produtos comprados pela internet, mas que nunca realmente chegaram a sua casa, como afirma. Esse sobre o jogo do Orkut é só mais um de reclamação por um serviço mal prestado. E não há absolutamente nada de constrangedor em se fazer ouvir. Aliás, o que há de errado em ligar pro call center de um chocolate que você comprou e que veio mofado?
Mesmo fato, só mudam os meios.
Em tempos de funções pós-massivas (basicamente, o então espectador da notícia subverte o processo de feitura do jornalismo - naquele modelo de emissão unilateral: emissor -> receptor - e se 'torna' produtor da notícia, tendo direito a voz e espaço comunicacional), é extremamente normal que ouçamos de pessoas ditas comuns. Especialmente quando têm razão sobre o que proclamam ou dizem ter.
Tullaluana, ao produzir seus vídeos, assume a voz abafada das palavras de outros usuários do jogo Colheita Feliz, que também, ela diz, reclamam na comunidade do Orkut. Aí, sim, seu discurso vale ainda mais. Se só como única enganada pelo jogo, ela já teria feito valer seu direito como consumidora, agora ela assume o papel social - e quase utópico - de comunicar e se fazer ouvir. Mesmo que o jogo pareça babaca.
Mas não recorrem tanto ao senso comum que diz que a vida é feita de escolhas? Todos decidimos com o que queremos nos distrair. Facebook, Orkut, MSN, Twitter. PlayStation, Wii. Uno, buraco, truco, canastra. Séries, filmes, livros. Academia, corrida, natação. Ela decidiu se divertir com o jogo, sentada na comodidade de sua casa.
Várias pessoas xingaram Tullaluana de gorda, de 'sem ter o que fazer', de preguiçosa e afins. Ela fez outro vídeo - indignada, com toda razão - perguntando os motivos. E justificou: 'eu tenho esquizofrenia, não saio de casa porque tenho síndrome do pânico'. E mostrou diversos remédios, laudo médico impresso e vias de liberação de medicamentos, cedidos pelo governo para curar seu mal, apesar de ilegíveis por falta de foco. Ainda assim, ela não se vale da condição mental para justificar sua euforia ou indignação. Apenas explica o motivo de sua possível obesidade. Tullaluana também deve ter diversos efeitos colaterais com que lidar e algum deles pode ter feito com que ela engordasse. Ou ela é assim mesmo.
E por que ficamos tão indignados quando ofendem um negro, dizem que nordestino não é gente, queimam um índio, batem em gays, apedrejam mulheres, batem em crianças, maltratam animais, mas não paramos - em momento algum - pra nos concentrar no ser humano na essência sem considerar ou relativizar com o tido 'normal' ou com nossas próprias existências a habilidade física e motora, o tamanho, a altura, o gosto, o cabelo, a cor da pele, idade, o quanto ela ganha ou perde por mês ou em qual bairro, cidade ou país mora? Por que precisamos da pena, da dó para manifestar interesse ou apoio a alguém e seu discurso? E por que precisamos saber que ela tem algum distúrbio mental e não pode sair de casa para, então, acharmos OK ela ser gorda? E insistentemente cito Adriana Calcanhotto: 'lanço meu olhar para o Brasil e não entendo nada'.
Tullaluana é, sim, gorda, sofre de esquizofrenia e síndrome do pânico, compra produtos que não chegam em sua casa, publica indignação e busca seus direitos como qualquer um deve fazer ao se sentir lesado. Mesmo em sua casa, ligando de seu telefone e não usando a internet, amplamente disponível, receptiva e sem preconceito para isso. Mesmo fato, só mudam os meios.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Negros

"A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
(...)
Os negros na cozinha
Os brancos na sala
A valsa na camarinha
A salsa na senzala
(...)
Os brancos são só brancos
Os negros são azuis
Os brancos ficam vermelhos
E os negros não
Os negros ficam brancos de medo
(...)
A música dos brancos
A música dos pretos
(...)
A pele dos negros é negra
Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada"

domingo, 27 de junho de 2010

Pela misericórdia

Sou um lobo. Tenho pelos por todo o corpo, mas meu coração é limpo. E embora meu corpo seja palco do que não devia, meus órgãos não se estragam. E nada em mim fede, além do estômago solícito que se desfaz em horas de jejum - o não religioso e sem propósitos, a não ser por menos gordura.
E não convivo com a vida que posso ou mereço - isso é decerto sublime.

sábado, 24 de abril de 2010

Isso

O discurso não se torna verdadeiro pela quantidade de vezes que você repete ou pelo tom de voz que usa. Nem pelo tanto de lágrima que derrama nem por causa da sua mão que não treme, transmitindo segurança.
A verdade está em quem você é e em como te enxergam.

Só dói muito ser visto como impuro.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Nº 5

A desconstrução das pessoas
A invalidez da amizade
A negativação
Anulação de si mesmo
Do outro, do qualquer, do fulano, daquele ali

De quem ninguém nota

Mas a decomposição leva tanto tempo quanto construir
                                                        - e dura nada


Consumir
Um ponto

terça-feira, 23 de março de 2010

Sobre osteoporose, reumatismo e afins

Uma guria do curso de inglês me disse "você é velho". E bastou pra que eu pensasse que passei tempo demais com gente mais velha e me acostumei com a idéia de não ser novo. E daí que alguns amigos dizem que sou mesmo um velho e que não bebo, não saio, não danço, não gosto de festa.
Mas eles têm motivos. E a menina?
Ela tinha 12 anos. A diferença de uma década me soa também estranho, mas não chego em ninguém com 32 e digo 'ei, tia, tá velha, hein'.
Do tempo, eu sei. Do cansaço, da falta, da saudade, da dor. De quanto levam uma vida e o trabalho das 14h às 20h30 nonstop em pé. E de como as pessoas dizem o que dizem por apenas dizer, sem querer levantar discussão alguma.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Calor

"Tarde sem nuvem
Cinquenta graus
(...)
Noite sem ninguém
Nada se mexe
(...)
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo parece
Derreter"

sábado, 26 de dezembro de 2009

Procura-se

Preciso de um emprego. Nem que seja de revisor ortográfico de matéria fim-de-carreira da Record:


Essa coisa de Natal


Presente dos Lachs

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Tipo caderno de viagem

Na segunda, jantei na casa de Rosana Lehmberg, uma brasileira simpática pra caramba que conheci na International Baptist Church em Hamburg. A caminho de Harburg, onde ela mora, desci na Hauptbahnhof para ver a área.


 
 
Hamburg Hauptbahnhof




IBC Men's Group @ Lehmberg's


Hoje fiz um boneco de neve e ajudei a ornamentar árvore de Natal (me salvei de ouvir Simone, mas de resto, vem tudo). Ficou menos parecido com um aborto do que o último que eu fiz.




sábado, 19 de dezembro de 2009

A preço de banana (importada do Brasil)

Não sei porque eles cobram tão pouco nos filmes - porque dá um trabalho filho da mãe -, mas eu to cobrando 20€ pra tirar neve da calçada.


 
As fotos da festa ficaram ótimas


Cortesia pros Schildeis

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Finalmente

Descobri que é mais fácil fazer castelo de areia do que boneco de neve.


Kringelkrugweg
 

Crocs da casa

 
Lago congelado 

 




Boneco de neve supimpa

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Duas histórias pequenas

Na outra semana, um evento para idosos em Norderstedt e eu fui de convidado. Tinha um casal simpático do meu lado, me explicando em alemão o que era dito no palco em alemão arcaico. Tinha uma mulher entalada com café sem poder tossir, e eu segurando a risada. Tinha a gordinha atrasada na coreografia da apresentação, e eu segurando a gargalhada. Uma mulher dormindo, se apoiando no próprio braço. E eu pocando, prendendo o riso.

Rodamos Berlin em dois dias e no terceiro dia, descansamos. E ela disse que a cidade não era boa e não era bonita e que Hamburg era melhor.
Encontrei com Jorge Amado numa esquina de uma avenida cheia de histórias. Estavam ele, Gabriela, o cravo e a canela, mas falavam outra língua, não era a minha.
Procurei carne de boi no cardápio do restaurante indiano. Comi um prato chamado Taj Mahal. Não paro de lembrar do gosto do carneiro cozido, do arroz com uma erva aromática e do molho doce, e a vontade de dar aquela vomitada vem sempre.
No final, eu achei Berlin uma mistura de valores e de impressões. Me lembrou Paris. Uma Paris meio pobre.
  
 
Brandenburger Tor 


  East Side Gallery


Reichstag


E aí, Jorge


Meio Paris

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Alô, Bahia, comi feijão

Tinha pensado em falar de outras coisas, mas hoje vai ser feijão.
Depois da frustração de uma torta de abacaxi mal assada (aka solada) da segunda semana na Alemanha, dois resultados me vieram: descobri que forno elétrico é mais fraco do que fogão convencional e surgiu o medo de cozinhar um brigadeiro que fosse aqui. 
Nessa semana, Margrit me apareceu com dois pacotes de farinha de mandioca da Índia e um pote de feijão cozido de Portugal e me disse que o almoço da sexta seria por minha conta. 
Hoje enfrentei a cozinha e saíram feijão refogado, purê de batata, farofa de manteiga e carne de porco frita e nenhum resultado desagradável. Posso dizer que estavam bons demais e ouvi 'sehr, sehr gut, Iulo' (bom, muito bom, Iulo) umas 5 vezes.


Temperando


Margrit e Oma
 

Oma

sábado, 14 de novembro de 2009

Pessoa s

Não me dê o que vestir, comer, babar, usar, mexer. Eu quase não estou para nada disso, não me viro com nenhum desses artifícios se tiver com quem conversar e ser gente.
Não ir ser selvagem como Pessoa, porque sei, sim, sentir. 
Sei ser humano e conviver com meus irmãos na terra, os homens. Por mais que chegue a doer, a enjoar, a enojar, a roçar, a ranger. Por mais que suas línguas firam e não saibam confessar de si nem purificar ou abençoar.
Ainda que em vão trabalhem, busquem na madeira oca a verdade e teatralizem simpatia, bem consigo gostar.
De todas as coisas, gosto mais das pessoas. Mais do que os lugares, as pessoas.
Mais do que tudo, gosto delas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Hamburger Dom


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Chega de realidade


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

2 days in Paris

Logo após o pouso em Paris, conheci Jeanine, uma menina bastante simpática da Namíbia, e, tocando conversa, fomos parar em algum terminal na tentiva de pegar nossas bagagens. Sem entender nada do que o cara do balcão me dizia (ele insistia no francês), eu já tremia e gaguejava. Alguém da fila nos salva dizendo que ali era só para embarque de conexão. Boa parte da fila ria. E eu ria porque, pelo menos, não tinha passado vergonha sozinho.
Andando só por Paris, claro, me perdi. É muito estranha a sensação, o que me aconteceu várias vezes, ainda que com um mapa. Senti falta do meu iPod touch, que caiu na privada, em todas as vezes em que andava sem direção, querendo saber em que mierda de rua eu estava, já que o mapa não mostrava todos os nomes. Não digo que gostaria de me perder de novo, mas gostei daquilo.
Depois de muito não saber qual caminho seguir, finalmente cheguei a Notre-Dame. Lá, conheci Rebecca, que é inglesa, e Melanie, australiana. Depois de quase três horas de conversa, marcamos de nos encontrar no sábado no começo da tarde embaixo da Torre Eiffel pra conhecer mais da cidade.
Pela manhã, fui ao Pompidou ver a exposição La Subversion des Images, com muitas peças de Cartier-Bresson e de Brassaï.
Saí de lá e fui ser o guia turístico - eu tinha feito quase o mesmo percurso na sexta -, como tinha combinado. Subimos a Champs-Elysées toda, compramos no Mc Donald's e fomos comer no Arco do Triunfo. Descemos depois para o Concorde, fomos a La Madeleine. Dessa vez, não me perdi, eu já tinha decorado os lugares. 
Depois, as meninas seguiram para visitar o Moulin Rouge, mas eu tinha de voltar pra casa. O caminho até o Le Marais foi complicado, foi quando eu me perdi de fato. Cheguei a Opéra, passei pela Galeries Lafayette, rodei tudo até achar qual avenida tinha de pegar. Peguei um ônibus até o Pompidou, que é bem perto de casa. Perdido, fui parar atrás do Louvre, quando deveria  ter seguido a direção oposta. Sem querer, refiz o tour pelos pontos típicos.
Foram só dois dias, mas deu para ver e comer Paris. Também serviu para pensar em comprar um GPS. Ou um novo iPod touch.


Notre-Dame


Pompidou


Mostra Vogue @ Champs-Elysées


 
Melanie e Rebecca @ Arc de Triomphe
 

Concorde


La Madeleine


Opéra


Musée du Louvre


Casa @ Le Marais